Um chamado à reflexão após o primeiro turno

Escrevo essa Carta Aberta dois dias após os resultados do primeiro turno das eleições para presidente da república de 2026. Esta não tem por objetivo convencer ninguém a mudar o seu voto, mas tentar projetar alguma luz aos muitos amigos que vi se sentirem perdidos e desesperançados com os resultados que observamos no último dia 04. Dito isto, será um texto longo, mas que escrevo de plena consciência e sem auxílio de qualquer modelo de inteligência artificial.

É importante ter em mente que essa eleição se trata de uma disputa assimétrica. Não falo de disputa entre dois partidos políticos, mas de uma disputa entre realidades paralelas em um mundo de pós-verdade1. Temos aproximadamente 10 anos de cultivo de bolhas de disseminação de informação da extrema-direita. A maioria das pessoas que nela se encontram não são burras, ou ignorantes, ou malignas, mas carentes de um espaço onde possam se sentir acolhidas e ouvidas.

O filósofo e cientista social Marcos Nobre apresenta o conceito de Partido Digital Bolsonarista, uma organização política que lidera um ecossistema virtual que vem se manifestando como espaço de acolhimento, suporte e empoderamento, coaptando milhares de consciências insatisfeitas com os rumos políticos da nação2. Para citar apenas um exemplo do poder desse ecossistema, Marcos Nobre me apresentou uma explicação para a volatilidade das opiniões de bolsonaristas durante a gestão 2019-2022 que até então eu nunca tinha ouvido: Quantas vezes, durante a sua gestão na pandemia, Bolsonaro não falou uma coisa e depois mudou de opinião contradizendo completamente o que havia dito uma semana atrás? E quando pensávamos que os seus seguidores finalmente despertariam para a realidade, acabava por vir aquele primo ou tio bolsonarista com um balde de agua fria, reproduzindo o mesmo novo discurso? Acontece que o discurso bolsonarista se molda conforme as repercuções dentro desse ecossistema virtual. O pulo do gato está em entender que, enquanto a constante mudança de opinião possa ser considerada característica de um líder fraco para muitos, para aquela comunidade é o sinal de que sua voz finalmente começou a ser ouvida. É claro que o fio que separa o empoderamento real e a sensação de empoderamento com fim manipulativo é muito tênue para quem observa de fora, mas não para quem está do lado de dentro. Convencer um bolsonarista a mudar seu voto é, portanto, quebrar seus valores, sua rede de apoio e sua noção de verdade. Isso é duro, é humilhante, e dificilmente vai acontecer a partir de um post de rede social.

Outra razão pela qual acredito que estamos em uma disputa assimétrica se encontra na forma como os algoritmos são desenhados. Se no seu feed de notícias chegam dezenas de informações sobre como o escândalo do Banco Master está associado aos políticos de direita, com uma pequena participação de alguns políticos do PT da Bahia; de como o Banco Central de Bolsonaro deu carta branca para que Vorcaro pudesse agir livremente; de como Flávio usou dinheiro dos aposentados do Rio para lavar dinheiro com uma vídeo biografia de seu pai… Enfim, basta uma rápida conversa, olho-no-olho, com uma pessoa de fora da sua bolha para perceber que ela pode acreditar que os escândalo Master é, na verdade, inteiramente culpa do PT. Isso não é ignorância, mas um sintoma de que a rede de informação acessível a ela pode não ser a mesma que a sua.

Se um bolsonarista estiver lendo isso, é nessa hora que ele dirá: E A SUA VERDADE, COMO VOCÊ SABE QUE NÃO ESTÁ SENDO MANIPULADA? Acredito que o maior remédio que podemos ter contra a ignorância é a presunção de que não somos completos detentores da verdade. De estarmos sempre abertos a nos informar a partir de diferentes fontes, e não apenas de reels, shorts e stories produzidos e disseminados pelos nosso ídolos. Sim, possuo meus vieses, mas eles jamais devem me impedir de apontar as críticas (e as tenho muuitas) contra o presidente que ajudei a eleger no última eleição. Ainda assim, diante do projeto que Flávio representa, Lula continua sendo uma opção onde o campo democrático e as conquistas ambientais e sociais são capazes de se manifestar. Mas esse não é um texto para bolsonaristas…

Você, amigo ou amiga desalentada com o resultado do primeiro turno… O que você posta no Instagram provavelmente alcançará apenas aquelas pessoas que concordam com você (e aquelas com quem você também costuma brigar), pois a luta nas redes sociais é uma disputa assimétrica. Acredito, contudo, que não é isso que definirá o resultado da eleição. Essa eleição será decidida pelos indecisos e os que deixaram de votar; pelos que acham que nem um lado nem o outro merecem seu voto; pelos que se encontram cansados pelo bombardeamento de informação que recebem a cada minuto.

Estamos todos saturados de relações virtuais, mas carentes de interações humanas. Apenas uma mensagem direta, uma carta aberta, uma conversa olho-no-olho, será capaz de sensibilizar consciências.

Vimos no primeiro turno a monopolização elevadíssima de legisladores eleitos de um mesmo partido, e a história ensina que homogeneidade de opiniões não é lá uma grande marca das democracias saudáveis. Contudo, a eleição ainda não acabou! E se um executivo de oposição pode não conseguir governar plenamente, ele pode ser o contraponto necessário para que consigamos reequilibrar a balança da diversidade na câmara legislativa e no senado até 2030.

Diego Aristófanes,
Porto, 06/10/2026

Footnotes

  1. Ver conceito de pós-verdade da academia brasileira de letras em: https://www.academia.org.br/nossa-lingua/nova-palavra/pos-verdade ↩

  2. Recomendo a entrevista realizada pela Agência Pública, em: https://apublica.org/2026/08/marcos-nobre-o-que-e-o-partido-digital-bolsonarista/ ↩